Ainda chove... aquele pé de tênis flutuante ajuda a entupir o canal. E agora a Cidade toda chove. Janelas corrediças sob mãos apavoradas se trancam veementemente, como se raios não pudessem ultrapassá-las. Corro para uma delas, uma daquelas esquecidas ... por cerrar.
Tenho a impressão de o redemoinho sorver aqui dentro. Lá, vão papéis, palitos de picolés, luvas plásticas - dedos sem anéis. Cá, jorra um líquido cristalino e salgado. Há uma chuva particular, íntima como sussurro de casal. Fico ouvindo o burburinho das calhas, entoam um cântico veranesco sofrido, talvez presságio de barreiras em estradas, escombros de morros...
Aqui, alvoroço, desassossego de vontades, carência de braço e abraço. Fora já são pingos, apenas tilintar de telha. Dentro é tempestade, soluço em torrente.


Um comentário:
Lindas imagens, muito sensíveis!!!
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